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Quando o Estado chega tarde demais

Quando o Estado chega tarde demais


Quando o Estado chega tarde demais

Cuiabá, Mato Grosso. Quarta Feira.

Toda vez que um feminicídio estampa as manchetes, o discurso oficial vem no automático: “vamos investigar”, “vamos apurar”, “o Estado está presente”. O problema é simples e cruel: o Estado quase sempre chega depois. Depois da denúncia ignorada, depois da medida protetiva descumprida, depois do silêncio. Depois da morte.

Mato Grosso segue figurando entre os estados com maiores índices de violência contra a mulher. Isso não é acaso. É resultado de uma combinação explosiva: machismo estrutural, falhas na prevenção, falta de resposta rápida e um sistema que ainda trata ameaça como “briga de casal”. Enquanto isso, mulheres seguem morrendo dentro de casa — o lugar que deveria ser o mais seguro.

O governo estadual gosta de destacar investimentos em segurança pública. E é verdade: houve reforço no efetivo, compra de viaturas, ampliação de unidades da Polícia Militar e da Polícia Civil, além de delegacias especializadas e programas de enfrentamento à violência doméstica. Recursos foram aplicados, estruturas foram criadas, campanhas foram lançadas. No papel, o avanço existe.

Mas segurança pública não se mede só em cifras, prédios ou números de operações. Mede-se em vidas preservadas. E quando falamos de feminicídio, o problema não está apenas na repressão, mas na prevenção — que ainda patina. Falta acompanhamento contínuo das vítimas, falta integração real entre polícia, Judiciário e assistência social, falta agilidade para transformar denúncia em proteção efetiva.

Não adianta investir milhões se a mulher continua esperando dias por uma resposta. Não adianta estatística bonita se a medida protetiva vira só um pedaço de papel. O feminicídio não é um crime de impulso: quase sempre é anunciado, repetido, escalonado. O Estado sabe. A sociedade vê. E mesmo assim, falha.

Segurança pública de verdade começa antes do tiro, antes da facada, antes da manchete. Começa quando a denúncia é levada a sério, quando o agressor é monitorado, quando a vítima não é deixada sozinha com o medo. Enquanto isso não virar prioridade absoluta, continuaremos contando mortos — e fingindo surpresa.

Essa não é uma crônica confortável. Não foi feita para agradar governo, oposição ou plateia. Foi escrita para incomodar. Porque enquanto o feminicídio for tratado como “mais um dado”, ele continuará sendo, todos os dias, mais uma tragédia anunciada.

— Célio Gomes de Souza
Colunista


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